A Porção de “Bereshit” – Início da Criação e o Desdobramento da Manifestação Divina A porção “Bereshit” abre o Livro de Gênesis com uma declaração que ecoa pela eternidade:בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ(Gênesis 1:1 – “No princípio, Deus criou os céus e a terra”). Essas estratégias aumentam a conversão e a receita sem precisar atrair novos clientes. Este versículo não apenas anuncia a criação do universo, mas estabelece o padrão pelo qual se desdobra o mistério da existência. Durante os seis dias da criação, a narrativa revela, de forma sequencial e ordenada, a formação da luz, dos céus, da terra, da vegetação, dos animais e, finalmente, dos seres humanos, criados à imagem e semelhança do Divino. Ao término do sexto dia, o sétimo é santificado como Shabat – um dia de descanso, um símbolo da perfeição e integridade da criação. A Narrativa Humana: Do Éden à Queda Após a majestosa descrição da criação, a porção se volta para a história da humanidade. No Jardim do Éden, Adão e Eva são colocados num estado de comunhão plena com o Criador. Todavia, a tentação, simbolizada pela serpente – que o misticismo identifica como manifestação do Sitra Achra (o Outro Lado) –, conduz o casal a transgredir o mandamento divino. Conforme descrito, após comerem do fruto proibido, ocorre a perda da “luz” espiritual que os revestia, culminando na expulsão do paraíso. Nesta narrativa, a queda não é entendida meramente como uma desobediência física, mas como uma alteração profunda na alma humana – uma ruptura que separa a essência divina do homem. O relato também prossegue com a história de Caim e Abel, retratando o primeiro conflito fraternal e o triste acontecimento do assassinato, bem como a continuidade da linhagem de Adão por meio de Sete, que prefigura a necessidade de redenção diante da crescente maldade humana, preparando assim o terreno para a história de Noé. O Zohar e a Interpretação Mística de “Bereshit” O Zohar, obra-prima da Cabala, oferece uma dimensão mística à porção de “Bereshit”. Segundo seus ensinamentos, o relato da criação transcende o mero aspecto físico e revela um desdobramento da emanação divina, manifestado através das Sephirot – os dez atributos divinos que estruturam a interação de Deus com o universo. Criação e a Emanação Divina O Zohar inicia sua análise meditando sobre a própria palavra “Bereshit”. Dividindo-a em “Bara” (בָּרָא – “criou”) e “Shit” (שֵׁת – alusão ao número seis), ensina que o mundo foi criado através de seis sefirót, que se estendem desde Chesed (חֶסֶד – Bondade Amorosa) até Yesod (יְסוֹד – Fundação). Cada dia da criação representa uma manifestação específica dessas energias divinas. Uma passagem fundamental do Zohar ilustra esse conceito: “Quando o mais oculto de todos os ocultos desejou revelar-se, Ele primeiro produziu um único ponto, que ascendeu ao pensamento, e nele Ele desenhou todas as formas e então as cobriu com uma capa, que é a estrutura extremamente profunda, e isso é chamado Bereshit (No princípio).”(Zohar I:15a) Esta descrição enfatiza que a criação tem início num “ponto único” – símbolo de Chochmah (חָכְמָה, Sabedoria) e intimamente ligado à sefirah de Keter (כֶּתֶר, Coroa), que representa a intenção divina suprema. Assim, de um ponto inicial em que a vontade de Deus se faz manifesta, emanam todas as outras sefirót e, por conseguinte, toda a criação. A Queda de Adão e Eva sob a Ótica Cabalística No que tange à queda de Adão e Eva, o Zohar oferece uma interpretação que transcende a literalidade do ato. O consumo do fruto proibido, interpretado cabalisticamente, representa a entrada do Sitra Achra – as forças da impureza – na alma humana. O Zohar afirma: “Quando Adão e Eva comeram da Árvore do Conhecimento, suas almas foram contaminadas pelo Sitra Achra, e a luz divina que uma vez os vestia partiu, deixando-os em um estado de nudez espiritual.”(Zohar I:36b) Tal leitura revela que o pecado original não foi apenas uma falha moral, mas um evento cósmico que resultou na diminuição da presença da luz divina na humanidade, desencadeando assim um exílio espiritual que demanda, por meio de ações e mitzvot, uma restauração da harmonia primordial. Interpretações Cabalísticas Clássicas e Contemporâneas A riqueza interpretativa da Cabala se manifesta em diferentes abordagens dos ensinamentos do Zohar: Rabino Isaac Luria (o Arizal) e o Conceito de Tzimtzum O Arizal introduziu o conceito de Tzimtzum (צמצום – “contração”), explicando que, antes da criação, a luz infinita de Deus preenchia toda a existência. Para possibilitar a criação de um mundo autônomo, Deus contraiu Sua luz, estabelecendo um “vazio” no qual a criação poderia emergir. A subsequente Shevirat HaKelim (שבירת הכלים – “quebra dos vasos”) resultou na dispersão das centelhas divinas, cuja missão é ser redimida pelo homem através do cumprimento das mitzvot e do esforço espiritual. Rabino Moshe Cordovero (Ramak) e a Harmonia das Sephirot Rabino Cordovero, em sua obra “Pardes Rimonim”, enfatiza que cada sefirah representa uma faceta singular da interação divina com o mundo. Ele interpreta o relato de Bereshit como a expressão de um equilíbrio harmonioso entre os atributos divinos, onde cada dia da criação reflete a interação entre as diversas sefirót, ilustrando a complexa sinfonia da criação. Rabino Yehuda Ashlag (Baal HaSulam) e a Alegoria da Jornada Espiritual Mais contemporaneamente, Baal HaSulam apresenta a visão de que os episódios narrados em Bereshit são, em essência, alegorias que descrevem processos internos da alma humana. Para ele, a história de Adão e Eva simboliza a descida da alma ao mundo material e a sua capacidade de redenção por meio da elevação espiritual – um percurso que demanda autoconhecimento e a prática das mitzvot para reconectar-se à fonte da luz divina. Fontes e Referências: Torá Escrita: Gênesis 1:1 – בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים… Gênesis 2: diversos versículos que descrevem a criação do homem e do Éden. Torá Oral e Comentários Rabínicos: Zohar: Trechos I:15a e I:36b, que oferecem uma leitura mística da criação e da queda. Rabino Isaac Luria (Arizal): Conceitos de Tzimtzum e Shevirat HaKelim, amplamente estudados em obras cabalísticas. Rabino Moshe Cordovero (Ramak): Pardes Rimonim, que explora a dinâmica das Sephirot na criação. Rabino Yehuda Ashlag (Baal HaSulam): Interpretações alegóricas dos relatos de Bereshit e a jornada espiritual da alma.